quinta-feira, 4 de março de 2010

Texto de Larissa Recamonde


(...) No terceiro dia em que dormia no pequeno apartamento de edifício recém construído, ouviu os primeiros ruídos. De normal, tinha sono pesado e mesmo depois de despertar levava tempo para se integrar no novo dia, confundindo restos de sonho com fragmentos da realidade. Por isso, não deu imediata importância à vibração de vidros, atribuindo-a a um pesadelo. A escuridão do aposento contribuía para fortalecer essa frágil certeza. O barulho era intenso. Vinha dos pavimentos superiores e assemelhavam-se aos produzidos pelas raspadeiras de assoalho. Acendeu a luz e consultou o relógio: três horas. Achou estranho. As normas do condomínio não permitiam trabalho dessa natureza em plena madrugada. Mas, a máquina prosseguia na impiedosa tarefa, os sons se avolumando, e crescendo a irritação de Gérion contra a companhia imobiliária que lhe garantia ser excelente a administração do prédio. De repente, emudeceram os ruídos.(...) E um vazio sonoro invadiu o pequeno apartamento. Gérion voltou para cama inconformado, pois teria que acordar muito cedo para o trabalho, era um pesquisador famoso na cidade.
Fazia sol naquela manhã, e em ressalva da madrugada perturbante, ele ainda dormia, atrasando-se para o trabalho. Ao meio dia é acordado com uns sons, mas desta vez eram gritos em tons agoniantes. Aborrecido desce da cama, troca de roupa, entra no elevador e vai em direção à portaria. Interroga o porteiro e este disse que se tratava de um novo morador no bairro, um estranho homem sozinho e enigmático, que se estabelecera no casarão, ali vizinho, que havia tempos que estava abandonado..
Devido às poucas informações coletadas, voltara ao seu pequeno cômodo onde se estabeleceu até o cair da noite, já que perdera o horário do trabalho. Não demorou muito para os barulhos voltarem a submergir o seu apartamento. Aquela já era a terceira vez na semana. Resolveu ir até aquele casarão e tirar satisfações com aquele senhor que com os seus hábitos estranhos o deixava perplexo.
Quando chegou à frente ao casarão, antigo e descuidado, o barulho se tornara mais intrigante. Bateu palma, pois não encontrara a campainha para que alguém viesse lhe atender e esperou alguns minutos. Em seguida o barulho silenciou, dando um ar de sossego, e a porta de madeira pesada se abriu. E dali nasceu a imagem de um senhor barbudo que usava óculos e tinha a pele descuidada. Este estendeu a mão para cumprimentá-lo e perguntou do que se tratava. Gérion, impressionado com aquela fisionomia, perguntou se poderia entrar para que pudessem conversar, tendo a aceitação ele entrou. A casa estava muito descuidada e só tinham algumas prateleiras e vários livros empilhados e encaixotados. O velho pediu que sentasse em uma das caixas. Acomodou-se e agradeceu ao senhor. Disse que estava ali para tirar satisfações de um incômodo sonoro que surgia daquele casarão e perturbara durante aquela semana. Ele responde com um pedido de desculpa e diz estar montando ali, naquele local antigo e sem estrutura, uma biblioteca. A conversa se estende e Gérion começa a conhecer a interessante história daquele senhor, que era um professor aposentado que perdera à família passara a ser um caixeiro viajante, querendo dividir com outras pessoas suas sabedorias e experiências.
A partir daquele diálogo, Gérion passou a ter outra visão sobre o professor e aprendera de não se pode julgar as pessoas apenas pelos atos e aparências. Criaram ali um laço de amizade com trocas de sabedorias. E, juntos, inauguraram a biblioteca com intuito de atender à população e levar á ela a cultura e os ricos ensinamentos dos livros.

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